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Compradores do tempo, por Cristovão Buarque

 Há um poema de Ralph Waldo Emerson que, em  tradução livre, diz mais ou menos o seguinte: "O cavaleiro serve ao  cavalo/o organizador à organização/o comerciante à sua bolsa/quem come  serve ao alimento/este é o tempo do ter/o tecido serve ao tear e o milho  ao seu moinho. As coisas estão na sela e conduzem a humanidade."

Com  mais de cem anos, esta reflexão serve para explicar o presente. Nunca  tantos dirigentes se reuniram tantas vezes e por tanto tempo, conduzidos  perplexos e impotentes pelo movimento dos fatos e das coisas ao redor.  Ao invés de reorientarem os destinos da humanidade, os "dirigentes" -  políticos e economistas - agem como simples compradores de tempo,  adiando o desenlace da crise.

Os fóruns internacionais aparecem na  televisão como reuniões de cardeais - os governantes - auxiliados por  teólogos - os economistas -, enquanto nas praças os "indignados"  movimentam-se por Reforma para o futuro. De crise em crise, os  governantes do mundo demonstram incapacidade política para entender a  dimensão do problema e incapacidade estadista para propor alternativas;  agem como impotentes atores de uma tragédia grega: não controlam o  desenrolar da história, apenas representam. Ou como comandantes de barco  sem bússola, navegando em círculos ganhando tempo para ver se surge uma  estrela nova no céu, ou se a tempestade acalma. Não parecem buscar  reorientação, contentam-se em adiar o desenlace, comprando tempo.

Semana  após semana, discute-se ajuda financeira, corte de gastos, aporte a  bancos, taxas de juros e paridade cambial. E marcam-se novas reuniões.  Não percebem a complexidade da armadilha na encruzilhada que a  civilização industrial enfrenta, ou são impotentes para quebrar as  amarras; ou pior, interessados e viciados na realidade e no curto prazo,  não querem mudar o rumo; preferem o desastre, à mudança.

Já não  há como aumentar os gastos públicos, mas sem eles o bem-estar social  desaba e o crescimento econômico estanca. Não há como crescer sem  vender, nem vender sem financiamento bancário, mas os bancos esgotaram  as possibilidades para criar moedas e a capacidade para financiar o  consumo. A degradação ambiental mostra os riscos da tragédia ecológica,  mas a proteção ambiental limita a possibilidade de crescimento. A oferta  de energia precisa aumentar, mas as grandes represas destroem a  biodiversidade, a energia nuclear é uma ameaça a ser evitada e as fontes  alternativas são caras. Sem o povo satisfeito não se vence eleição, mas  atender os desejos do povo agrava a crise.

Alguns podem pensar  numa saída para a crise global e civilizatória, mas seus instintos  políticos estão voltados para o eleitor local e as próximas eleições. De  tanto olhar para juros, moeda, dívida, câmbio e produção, os  economistas e políticos não têm capacidade para ver a dimensão completa  da civilização global. De tanto querer retomar o ritmo do crescimento da  economia, não percebem a necessidade de mudar o rumo do futuro. A  prisão ao velho paradigma do crescimento a qualquer custo e a qualquer  perfil do PIB impede os governantes de pensarem em alternativas que  levem em conta as limitações do modelo que se esgotou depois de cem anos  baseado no consumismo. Soluções como, por exemplo, elevação do  bem-estar pela redução da jornada de trabalho, ampliação da oferta de  bens públicos e garantia de meio ambiente sadio não entram na lógica dos  debates. E se propuserem essas soluções, seus eleitores não se  satisfarão, porque desejam, sobretudo, retomar o mesmo caduco modelo  esgotado.

Os "indignados" manifestam o descontentamento, mas não  carregam ainda as cores da bandeira de uma nova civilização. Os jovens  não lutam por um mundo diferente, mas para garantir no futuro os  privilégios dos pais, no passado. Só um novo modelo nas mãos de  estadistas globais poderia trazer esperança de uma reorientação  civilizatória. No entanto, nossos dirigentes e economistas, com raras  exceções, continuam prisioneiros de crenças do passado economicista,  condenados a compradores de tempo, sem oferecer esperança.


PuBlicado no jornal O Globo, 24/09/2011
Cristovão Buarque é um engenheiro mecânico, economista, educador, professor universitário e senador pelo Distrito Federal