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Pesquisa realizada no IFBaiano-Catu mostrou como foi a repercussão das bombas de Hiroshima e Nagasaki nos jornais baianos da época

Estado da Bahia, 10 de setembro de 1945
Conheça o resumo expandido de uma pesquisa desenvolvida no IFBaiano-Catu, sobre a repercussão nos jornais baianos, nos anos de 1945 e 1946, das explosões das bombas nucleares de Hiroshima e Nagasaki na Segunda Guerra Mundial. Este resumo foi publicado na revista Ciência Junior do IFBaiano-Catu e apresentado na 10ª FEBRACE (Feira Brasileira de Ciências e Engenharia), ocorrida em São Paulo.

“Memórias da bomba”: um estudo sobre a repercussão das explosões nucleares de Hiroshima e Nagasaki nos jornais Baianos (1945-1946)
Ronaldo Evangelista Martins¹; Marcelo Souza Oliveira²; Paulo Cezar Paim de Jesus1; Pablo Santos Dantas3;

Estudantes do curso Técnico em Agropecuária Integrado ao Ensino Médio no IF Baiano-campus Catu. Bolsistas PIBIC Jr (PROPES/IF Baiano)      Email: ronaldomartins1005@gmail.com; paulong-17@hotmal.com
Orientador/Professor do IF Baiano, Campus Catu. Doutorando em História Social/UFBA.  Email: historiadormarcelo@bol.com.br
3  Graduando em Química pelo IF Baiano Campus Catu. .  Email: pablovilares@hotmail.com

Diário da Bahia, 1945
A energia nuclear nos dias atuais é utilizada em diversas áreas da ciência, desde tratamento de doenças complexas à datação de materiais fósseis. Além disso, esse tipo de energia é uma fonte de eletricidade comum em países com potencial hídrico, eólico e solar pobre, apresenta menos impacto ambiental que uma hidroelétrica e produz menos poluição visual que os cata-ventos de energia eólica. Porém, quando se fala em energia nuclear surge na memória coletiva, a imagem catastrófica de um gigantesco cogumelo nuclear e seu poder de destruição. Essa visão sobre a energia nuclear nasce nos fins de 1945, quanto o mundo começa a tomar nota dos horrores causados pelas bombas de Hiroshima e Nagasaki. Segundo Jayme Ribeiro, “em 1942 foi implantado o projeto Manhattan, no qual, cercados de sigilo, trabalharam diversos físicos domiciliados em território norte-americano. Três anos mais tarde, no dia 16 de julho de 1945, foi realizado com sucesso no deserto de Alamogordo, estado do Novo México, o primeiro teste nuclear do Mundo” (RIBEIRO, 2009). Menos de um mês depois do teste em Alamogordo foi lançada sobre a província de Hiroshima a bomba nuclear responsável pela destruição de 60% da cidade. Três dias depois, cai sobre Nagasaki outra bomba com potencial de destruição ainda maior que a lançada sobre Hiroshima. É a partir desses acontecimentos que a energia nuclear é apresentada ao mundo, marcando o que Eric Hobsbawm chama de “Era da Catástrofe” (HOBSBAWNM, 1991).  Nesse contexto, o objetivo desse projeto é tentar lançar uma luz sobre esse tema, procurando entender como se processou a repercussão desses fatos nos jornais da Bahia, identificado e desmistificando falácias e mitos, no que se refere à energia nuclear. Especificamente estudamos a repercussão desses fatos nos jornais e revistas publicados na Bahia no período de 1945 a 1946.

O trabalho de pesquisa consiste em sete etapas: 1 – Revisão da literatura pertinente; 2 – Levantamentos das fontes disponíveis na Biblioteca Pública do Estado da Bahia, para essa pesquisa utilizaremos as edições os seguintes periódicos Jornal de Notícias, Diário da Bahia e A tarde, publicados entre 1945 e 1946; 3 – Digitalização das fontes (fotografia) 4 - Catalogação e organização das fontes no formato digital; 5 – Transcrição das fontes; 6 – Cruzamento e análise das fontes à luz da bibliografia realizada na revisão de literatura; 7 – Reflexão e escritas de trabalhos científicos

O Imparcial, 9 de agosto de 1945
Na Bahia, constatamos que os jornais informavam sobre as bombas atômicas, mas não esclareciam o que realmente estava se passando em Hiroshima e Nagasaki, confirmando o que afirmava Jaime Ribeiro (2009). Observamos, também, que a maior parte das notícias veiculadas nos provisórios baianos eram informações de jornais internacionais. Os redatores dos jornais da região dificilmente publicavam textos de sua autoria referentes ao assunto. Isso, provavelmente, devido à velocidade dos meios de comunicação da época e, no caso do ataque ao Japão, somada à falta de informação técnica sobre o assunto. Apenas notícias de periódicos de países do grupo aliado e vindo de outros estados brasileiros, como Rio de Janeiro, por exemplo, eram publicadas nos jornais da Bahia. Na maioria das vezes, as notícias vinham de Washington (EUA), Londres (Inglaterra) e Paris (França). Era muito difícil naquele momento fazer a cobertura jornalística de um acontecimento com este, por isso se tornava mais interessante para os jornais baianos publicar trechos de outros jornais.  Mas, porque apenas noticias de países aliados eram publicadas? Uma questão importante, que cabe lembrarmos é que as notícias que circulavam nos jornais baianos eram discutidas da perspectiva dos vencedores, já que o Brasil integrava os grupos dos Aliados. Não era do interesse dos jornais conservadores apresentarem a visão do “inimigo” para a sociedade.

Em alguns jornais, percebemos até mesmo a tentativa de justificar as atrocidades cometidas pelos EUA apelando para a difamação da imagem dos japoneses.  Em uma manchete do Estado da Bahia, datada de 10 de setembro de 1945, pode ler: “Os japoneses comiam os ianques mortos”. Percebe-se que nas primeiras publicações após o acontecimento no Japão, a mídia baiana se encontrava tão perdida quanto a população com relação à energia atômica e, muitas vezes, publicavam informações equivocadas contribuindo para a construção de verdadeiros mitos sobre o assunto.

Os jornais baianos também procuravam explorar o assunto de forma sensacionalista ao mesmo tempo em que tentavam justificar a atrocidade cometida pelos Estados Unidos. Em uma manchete encontrada no Diário da Bahia, aparecem, por exemplo, manchetes: “Matéria-prima para a “bomba atômica”: existe no Brasil, o urânio, em fontes inexploradas” (Diário da Bahia, 09 de agosto de 1945); “A bomba atômica poderá perturbar o equilíbrio do universo” (Diário da Bahia, 10 de agosto de 1945)

Os jornais conservadores informavam à sociedade sobre uma energia nuclear cercada de mitos e repleta de informações técnicas destorcidas. Ao mesmo tempo em que exploravam o assunto de forma um tanto sensacionalista, afirmando, diversas vezes, que a energia nuclear era um problema para o planeta, os jornais defendiam a posição dos Estados Unidos, na decisão de atacar o Japão. Dificilmente, eles informavam sobre o que realmente estava se passando nas cidades japonesas.

As noticias que eram publicadas nos jornais Baianos vinham quase sempre de correspondentes de países aliados aos Estados Unidos, que sempre o defendia colocava-o sempre com razão, e fazendo os Japoneses parecerem verdadeiros monstros, aproveitando também para explicar o porquê do bombardeio nas cidades Japonesas, nunca falando detalhadamente sobre o que estava acontecendo no Japão. Sendo que a população não obtinha nenhum conhecimento sobre esse tipo de tecnologia.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
DIAS JUNIOR, José Augusto. e ROUBICEK, Rafael. O brilho de mil sóis: história da bomba atômica. São Paulo, Editora Ática, 2009.
HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos: o breve século XX. São Paulo: Cia. das Letras, 1995. pp. 29-60.
MAGALHÃES, Fernanda Torres. 6 de agosto de 1945: um clarão no céu de Hiroshima. São Paulo: Editora da Companhia Nacional, 2005.
RIBEIRO, Jaime. Os “filhos da bomba”: memória e história entre os relatos de sobreviventes de Hiroshima e Nagasaki e a “Campanha pela Proibição das Bombas Atômicas” no Brasil (1950). Revista Outros Tempos. Volume 6, número 7, julho de 2009. Disponível em: www.outrostempos.uema.br/vol.6.7.pdf/Jaime%20Ribeiro.pdf acesso em 21 de abril de 2010, ás 21:20h.