PARTE 1 - "Pojuca: 30 anos de uma tragédia que poderia ter sido evitada". Veja cobertura do Folha de São Paulo na época
Neste sábado (31), completa 30 anos de uma das maiores tragédias ferroviárias do país, ocorrida no município de Pojuca, na qual dezenas de pessoas foram mortas e centenas ficaram feridas, após o descarrilamento de um trem carregado de gasolina e diesel. Uma série de negligências provou a tragédia e fez com que as proporções fossem traumatizantes. O fato acompanhado pela imprensa nacional e a tragédia levantou novas discussões que provocaram fortes mudanças na regulamentação de segurança das atividades ferroviárias no Brasil. Um mês depois da tragédia, o transporte de passageiros por trem foi suspenso em importantes linhas da Região Metropolitana de Salvador. O Expresso preparou para seus leitores a série "Pojuca: 30 anos de uma tragédia que poderia ter sido evitada", resgatando reportagens da época nos principais meios de comunicação do país. Abaixo segue a parte I da série, com a cobertura do jornal Folha de São Paulo:
Trem
de combustível explode e mata 42 no interior da Bahia
02
de setembro de 1983, Folha de São Paulo
Quarenta e dois mortos, mais de duzentos feridos internados em hospitais da Grande Salvador, este é o saldo inicial - até as 19 horas de ontem - do mais grave acidente ferroviário ocorrido nos últimos anos no Brasil: uma composição, transportando gasolina e diesel da refinaria Landulfo Alves para Aracaju, saiu dos trilhos na manhã de anteontem, em Pojuca, localidade a 90 quilômetros de Salvador, provocando o tombamento de três dos seus vagões, cada um com 35 mil litros de gasolina, vazando imediatamente e explodindo 13 horas depois.
O
acidente aconteceu às 7 horas e a primeira explosão se deu às 20 horas, matando
dezenas de pessoas e ferindo mais de 300. As autoridades competentes,
notadamente as da Rede Ferroviária Nacional, admitiram, ontem, que
negligenciaram na tomada de providências que deveriam ser adotadas de imediato.
Assim, durante todo aquele dia, centenas de moradores de Pojuca, principalmente
a população de baixa renda que vive ao longo da via férrea, nas proximidades da
passagem de nível onde ocorreu o descarrilamento, recolheram o combustível,
transportando-o para suas casas. Ninguém atendeu a ordem de evacuar o local. O
superintendente da Rede na Bahia, Valter Chagas, em entrevista ontem,
reconheceu que houve a negligência pois, ele próprio, preferiu incorporar-se a
comitiva do ministro Cloraldino Severo a assumir pessoalmente o controle da
situação. A Rede, inclusive, vai assumir todo o ônus do acidente, além de
responsabilizar-se pelo atendimento médico das vítimas e a reconstrução das
dezenas de casas destruídas. Para isso a Refesa abriu sindicância, através de
comissão de inquérito já instalada para apurar os fatos e suas consequências,
num prazo de trinta dias.
O precioso
líquido
Ao
ver o líquido tão caro jorrando graciosamente, a população de Pojuca, habituada
a lutar pelo seu subsalário, principalmente aqueles que viviam ao longo da
estrada de ferro, resistiu às ordens de evacuar o local, emitidas pela polícia,
embora tardiamente, e continuou a recolher o combustível. Assim, foram
atingidas violentamente pela primeira explosão. Poucas testemunhas, mas as que
conseguiram sobreviver, descreveram os horrores de ver corpos voando,
totalmente em chamas e carbonizados em segundos. A rua da Piedade, com suas
trinta casas, deixou de existir. As chamas da primeira explosão atingiram a um raio
de 200 metros, elevando-se a mais de trinta de altura. O fogo tomou conta de
toda a área, alimentando ainda mais pela gasolina já recolhida e armazenada nas
casas das proximidades. As chamas se alastraram muito mais após a segunda
explosão, às 22 horas. Desta feira, os atingidos foram bombeiros, funcionários
da Petrobrás e do Polo Petroquímico que para lá se deslocaram, levando sua
experiência em combate a sinistros desse porte, adquirida em constantes
treinamentos. Até a madrugada de ontem o fogo continuava devorando tudo o que
encontrava pela frente, deixando, no seu rastro, as cenas de desespero daqueles
que conseguiram sobreviver ao inferno que se transformou Pojuca, cidade
pequena, desconhecida, quase cidade-dormitório de Salvador, Candeias, Camaçari
e Simões Filho, municípios onde estão instaladas a Refinaria Landulfo Alves, o
polo petroquímico e o Centro Industrial de Aratu.
Até
o fim da noite de ontem, continuavam as operações de rescaldo da área atingida,
trabalho de grande periculosidade, face aos gases emanados pelo combustível
ainda existente e que poderiam provocar novas explosões. Desta feita, muitos
habitantes da cidade continuavam a fugir dela.
Os
hospitais de Salvador estão totalmente lotados, com dezenas de queimados,
muitos à morte, ocupando enfermarias e corredores. Informações extra-oficiais
dão conta que existem quase 200 pessoas internadas, das quais mais da metade
com poucas chances de sobrevivência.
O
número de mortos pode ser ainda maior ainda maior face à falta de medicamentos
específicos para o tratamento de queimaduras, tais como antibióticos e plasmas,
alem de outros indicados para sequelas consequentes que o queimado vem a
sofrer: infecções e insuficiência renal.
Há dois anos
técnico advertia para o perigo
Há
dois anos, o diretor do Instituto de Química da Universidade Federal da Bahia,
professor Celso Spínola, advertiu para a tragédia que se esboçava na área
industrial da região metropolitana de Salvador, com a negligência das medidas
de segurança e a falta de regulamentação no transporte de cargas inflamáveis e
tóxicas. Esta previsão do especialista veio a se confirmar, de forma dramática,
com a explosão dos vagões da Rede Ferroviária Federal carregados de gasolina e
diesel, na noite de anteontem, em Pojuca.
As
atenções do professor de química não estavam voltadas para a quase desativada e
precária malha ferroviária da Bahia, implantada no inicio do século. Dirigia-se
sobretudo para o transporte de ácido cianídrico - usado para execução na câmara
de gás - e de produtos do Polo Petroquímico de Camaçari para o Porto de Aratu,
por via rodoviária. As deficiências neste transporte foram admitidas pelo então
diretor do complexo de Camaçari (COPEC), Raimundo Brito, reforçando a tese de
necessidade de uma legislação especifica para a movimentação de carga perigosa.
Já
são 53 os mortos no acidente da Bahia
03
de setembro de 1983, Folha de São Paulo
Há riscos de novas explosões em Pojuca
Salvador
- Já são 53 mortos no acidente ocorrido na noite de quarta-feira, em Pojuca, na
Bahia, quando dois vagões da empresa rede ferroviária/Leste, transportando
gasolina, explodiram após horas depois de descarrilarem. Esta estatística
tende, infelizmente, a aumentar uma vez que, dos 160 feridos hospitalizados em
Salvador, um grande numero está com a vida por um fio. Exemplo disto são as
informações de médicos do Hospital Roberto Santos onde, dos 17 queimados ali
internados, apenas um tem chance de escapar. A mesma situação se repete nos
hospitais Simões Filho, dos Servidores Municipais, no Espanhol, no Português e
no Jorge Valente.
Felizmente,
a notícia de que estava faltando medicamentos nos pronto socorros era
inverídica. Mas, mesmo assim, a população baiana acorreu em massa, levando
mercúrio, mertiolate, esparadrapo e outros medicamentos. O sangue, raro nos
hospitais em tempos normais, foi obtido com fartura. As mortes - cinco, ontem -
foram provocadas pelas queimaduras de segundo e terceiro graus e por
insuficiência renal nas vítimas, sequelas inevitável em sequelas desta
gravidade.
Pojuca,
a cidade atingida, parece que foi bombardeada. As casas próximas aos vagões
tombados estão em ruínas. A rua da Piedade, totalmente destruída, está cheia de
escombros, havendo a possibilidade de estirem corpos soterrados. A população
continua tensa, pois novas explosões podem ocorrer, e evita comentar a
tragédia. Todos, porém, culpam a Rede e a Petrobrás. Eles chamam a locomotiva
número 4.842, que puxa combustível, como o “Trem da Morte”. Em apenas dois
meses ocorreram três acidentes com a composição. O governador João Durval
também responsabilizou diretamente a Rede e a Petrobrás, mas isentou de culpa
seu Secretário de Segurança Pública, coronel Antônio Bião, que vem sofrendo
pesadas críticas desde a violência policial contra estudantes, ocorrida na
semana passada. Enquanto isso, a Rede tenta reduzir sua culpa e, segundo o
presidente da empresa, “a causa determinante do acidente foi a inadvertência de
algum fumante inveterado”. A Petrobras afirma não ter quaisquer
responsabilidade pois, assim que a gasolina ou demais produtos saem de suas
instalações, o risco passa para o transportador. Na verdade, este ramal está em
precaríssimo estado, além da pouca qualificação dos operadores dos trens. Anteontem,
a mesma locomotiva provocou um acidente, esmagando um automóvel bem perto do
local das explosões. O motorista salvou-se, mas com escoriações.
Centelha de motor
O
trauma em Pojuca ficou ainda mais forte quando soube que dos 36 corpos
carbonizados, encontrados na área atingida, a maioria era de crianças e
adolescentes. Ainda em estado de choque, algumas testemunhas concordaram em
descrever a tragédia. Eliana Guimarães, 26 anos, diz que, “Os homens da
Petrobras estavam retirando a gasolina com um motorzinho. Quando esvaziaram um
vagão e passavam para o outro, eu senti um fedor forte. Chamei meu marido para
ir embora. Quando virei as costas e ia descendo a encosta da linha ouvi um
chiado e o fogo começou a subir. Corremos e ainda pude ver duas pessoas que
estavam perto da gente, começando a queimar, a Lucia, que morreu e uma outra
que ficou toda queimada. Eu acho que foi uma centelha do motorzinho que
provocou o incêndio”. Outro depoimento, este de Edival Ramos, “Às sete horas,
quando o fogo começou, tinha um motorzinho da Petrobras puxando gasolina para
tambores e caminhões”.
Ainda
hoje o risco de novas explosões é grande. Técnicos da Petrobras e de empresas
do Polo Petroquímico fizeram testes com um “explosímetro” e constataram que no
interior dos vagões a explosividade é de 100 PC. Além disso a área está toda encharcada
de gasolina, desprendendo gases, tornando-a altamente perigosa.
Coisas
inacreditáveis são relatadas pelos que viram o acidente. Dizem que a polícia,
ao invés de isolar a área, afastando as pessoas, disciplinava o recolhimento da
gasolina, organizando os populares em filas. Só horas depois chegou um
engenheiro da Rede, tentando isolar o local, com uma corda. Mas a frase que
mais define a causa do pavoroso acontecimento foi ouvida por João Oliveira
Santos, logo após o descarrilamento, no diálogo entre dois maquinistas da
composição: “Olá, nego, você vinha era correndo, heim?”




