ESPAÇO DO LEITOR: O mito e os fatos - Catu, sua origens e seu destino
Texto enviado pelo leitor Marcelo Souza Oliveira.*
Todo povo tem seus mitos. Por um tempo os historiadores pensaram que o mito deveria ser algo para se derrubar, se desmascarar, se desmitificar. O mito era visto como uma mentira e a História como a verdade. Os tempos mudaram e agora descobrimos que os mitos também tem as suas verdades. Os mitos de criação de Catu, por exemplo, remontam a dois personagens: aos portugueses e aos índios.
Os índios, batendo em retirada do litoral, ocuparam as terras nas margens de um rio que eles chamaram de Catu (do tupiniquim “algo bom”), formaram aldeias e desbravaram essas terras pela primeira vez.
Os brancos portugueses, como colonizadores chegaram nessas terras e “compartilhando-as” com os “bravos índios tapajós”. Esses últimos bateram em retirada mais uma vez... O sentimento nativista oriundo da literatura romântica de outrora, relega aos índios o papel de uma espécie de “proto-brasileiros”. Mas deles apenas ouvimos as lendas, pois nunca os vimos e nem vestígios de sua estadia que encontramos, a não ser as origens indígenas presente nos nomes de algumas localidades de Catu.
Mas o português no nosso mito de origem é privilegiado. Ele veio ocupou a terra e a “civilizou”. Católico e branco, declarou-se proprietário das terras catuenses e nem sequer deram ao negro, que aqui também chegou - ou melhor foi obrigado a chegar -, a possibilidade de virar um dos personagens dessa história.
Mas o mito é mais poderoso do que parece e ele ainda persiste: os dominantes do mito são caricatura dos dominantes de hoje. Eles governam a nossa cidade e relegam aos demais o papel de subalternidade. Na história de hoje, eles ainda se vêem como protagonistas e o pior é que muitos de nós também os vemos da mesma forma. Votamos neles, elegemos eles e eles governam pra eles e a eles beneficiam.
Acho que o mito de origem poderia ser reescrito. Quem sabe a história poderia sem mais ou menos assim: e os índios aqui chegaram chamaram essa terra de “terra boa” e logo depois foram expulsos e usurpados em seus direitos. Logo depois vieram os portugueses, que desbravaram dividiram e fatiaram nossas terras. Quando então vieram os negros, escravizados, porém bravos construtores, lançaram as bases da nossa sociedade, na economia e na cultura, na arte e na política. Na política, sim, porque não? pois resistiram, resistiram, até que hoje (ou amanhã?) chegaram ao poder da nossa bela terra.
Se os mitos nos falam de verdades, não das ocorridas, mas das idealizadas, das que criam identidades, quem sabe se lêssemos sobre um outro mito, seriamos capazes de perceber que está na hora de mudarmos os fatos? Isso é algo para se pensar...
*Marcelo Souza Oliveira é professor do Instituto Federal Baiano – Campus Catu, Doutorando em História Social pela UFBA e coordenador do Projeto Escola Itinerante.
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