PARTE 2 - "Pojuca: 30 anos de uma tragédia que poderia ter sido evitada". A cobertura da Revista Veja
Neste sábado (31), completa 30 anos de uma das maiores tragédias ferroviárias do país, ocorrida no município de Pojuca, na qual dezenas de pessoas foram mortas e centenas ficaram feridas, após o descarrilamento de um trem carregado de gasolina e diesel. Uma série de negligências provou a tragédia e fez com que as proporções fossem traumatizantes. O fato acompanhado pela imprensa nacional e a tragédia levantou novas discussões que provocaram fortes mudanças na regulamentação de segurança das atividades ferroviárias no Brasil. Um mês depois da tragédia, o transporte de passageiros por trem foi suspenso em importantes linhas da Região Metropolitana de Salvador. O Expresso preparou para seus leitores a série "Pojuca: 30 anos de uma tragédia que poderia ter sido evitada", resgatando reportagens da época nos principais meios de comunicação do país. Abaixo segue a parte II da série, com a cobertura da Revista Veja:
Descaso e tragédia: Uma cadeia de omissões causa uma catástrofe em que dezenas de pessoas perdem a vida sob as chamas (Revista Veja, Edição 783, 7 de setembro de 1983)
O superintendente da Rede Ferroviária Federal na Bahia, Walter Geb Valverde, envergava um terno aprumado, na manhã de quarta-feira [31 de Agosto de 1983], pronto para comparecer a uma solenidade, em Salvador, em que estaria presente o ministro Cloraldino Severo, dos Transportes, quando foi informado de que, 2 horas antes, três vagões contendo 126.000 litros de gasolina haviam descarrilado de um comboio, em plena área urbana no município de Pojuca, a 68 quilômetros de Salvador. Talvez por estar acostumado com os constantes acidentes na antiga precária Linha Norte, com 462 quilômetros, ligando o terminal de Madre de Deus, na Bahia, ao de Riachuelo, em Sergipe, ou sem vontade de perder a programação organizada para recepcionar o ministro dos Transportes, em vista à Bahia, Valverde deu pouca importância ao fato: limitou-se a despachar dois engenheiros a Pojuca, para averiguações de praxe. Foi este o primeiro elo da gigantesca corrente de erros e omissões que acabaria por provocar a morte de pelo menos 48 pessoas [atualmente fala-se em um número bem maior], e ferimentos graves em outras 162 [número também considerado amor nos dias de hoje], muitas delas ainda com risco de vida, em uma das mais dantescas catástrofes ocorridas no país nos últimos anos.
CENAS DE GUERRA
“As labaredas subiram de repente, fazendo um barulho de vácuo”, conta Carlos Antônio dos Santos, na época com 20 anos, uma das testemunhas da tragédia. “Vi pessoas pulando dentro das chamas, pensei em acudir, mais quando vi o fogo próximo saí correndo.” A explosão de um dos vagões ocorreu pouco depois das 20 horas do dia 31 de Agosto de 1983 – nada menos de 13 horas depois de iniciado o vazamento, sem que nenhuma providência mais enérgica tivesse sido tomada nesse intervalo. Quinze casas que existiam no local, situadas a menos de dez metros da linha do trem, se incendiaram imediatamente. Boa parte das vítimas foi atingida pelas labaredas dentro de suas residências, apanhada de surpresa, sem tempo de fugir.
“Quando saí de casa, vi meu vizinho envolvido pelo fogo, estendendo as mãos para mim”, diz Ivonilda Pauferro. “Não pude fazer nada por ele, que estava nu, quase sem pele, transformado numa tocha.”
Quando as contínuas levas de feridos começaram a chegar ao Posto de Saúde de Pojuca – uma cidade de 7.000 moradores, a maioria operários –, logo os médicos se deram conta de que não poderiam socorrer todos. “ A procissão das vítimas era tão grande que fiquei assustado”, confessa o médico Roberto Leite Alves, na época com 32 anos. “Parecia um filme de terror.” A perplexidade tomou conta de Pojuca. Um dos queimados, por exemplo, percorreu aos gritos centenas de metros pelas ruas da cidade com a pele desprendendo-se do corpo, sem que ninguém soubesse o que fazer com ele. Passado o susto, a improvisação dos habitantes contribuiu para que os feridos fossem rapidamente removidos para onze hospitais de Salvador. Amontoados em caminhões, ônibus, ambulâncias e em carros da polícia, as vítimas da explosão formavam um cortejo macabro.
Ao desembarcar no Hospital Getúlio Vargas, na capital baiana, algumas pessoas tinham medo de levantar-se dos bancos dos veículos, pois seus corpos estavam colados nos assentos.
“Nunca pensei que pudesse presenciar cenas semelhantes sem estar participando de uma guerra”, afirma o médico Paulo Freire, na época com 26 anos, do Hospital Getúlio Vargas. Apenas nas 5 horas iniciais de atendimento, os gastos com antibióticos e morfina superavam o consumo mensal do Getúlio Vargas na época. Também foram utilizados 120 quilômetros de ataduras, o dobro do que o hospital utilizava em um mês, e um total igual a uma viagem de ida e volta entre Salvador e Pojuca. “Atendemos 160 pessoas, mais de cem delas em estado gravíssimo”, conta o médico Luiz Jorge Jambeiro, 41 anos na época, diretor do pronto-socorro do Hospital Getúlio Vargas.
DOIS CAMINHÕES-PIPAS
Na tragédia de Pojuca, somente o fogo agiu rapidamente. Durante as 13 horas que separaram o descarrilamento da explosão, a morosidade e a ineficiência das autoridades responsáveis pela segurança local deram o tom. Logo nas primeiras horas da manhã de Quarta-feira, mais de 1.500 pessoas postavam-se ao lado dos vagões caídos, e centenas de crianças recolhiam a gasolina derrubada em baldes, que eram vendidos ao preço camarada de 100 cruzeiros o litro. Para deter essa multidão, atuaram apenas o minúsculo destacamento da PM de Pojuca, alguns guardas ferroviários e duas brigadas de incêndio da Petrobras, num total de quinze homens. O comandante da PM local, na época sargento Campos, tomou as medidas que estavam ao seu alcance – mandou desligar o cabo de alta-tensão que passava sobre os trilhos, comunicou-se com a Rede Ferroviária Federal, pediu que os moradores abandonassem as casas mais próximas do desastre e solicitou reforços.
A presteza do sargento Campos não surtiu efeito, porém. O tráfico de gasolina e a região não foi isolada. Apenas, foram enviados mais dez policiais para ajudá-lo. Rafael Vasconcelos e José Barreto Pereira, os engenheiros mandados a Pojuca pelo superintendente da Rede Ferroviária Federal, limitaram-se a providenciar que dois caminhões-pipa da Petrobras saíssem de Candeias, a 20 quilômetros do acidente, para resfriar os vagões, superaquecidos pelo sol do meio-dia. A Petrobras, por sua vez, retirou de Pojuca os outros dezessete vagões que integravam o comboio.
Não se sabe ao certo qual o mecanismo que fez brilhar a faísca que iniciou o fogaréu. Especula-se que algum morador, de estômago vazio desde a manhã, possa ter riscado um fósforo para acender o fogão de sua casa. Ou que alguém tenha acendido um cigarro. Ou ainda que o martelo de um dos trabalhadores que reparavam os trilhos da ferrovia teria soltado uma faísca ao bater no ferro. Todas as suposições, no entanto, convergem para uma realidade indesmentível: o solo do local, por dezenas de metros, estava encharcado de gasolina. O depoimento do mecânico Aristóteles Sales Filho (no final da matéria) aponta como provocador da centelha uma bomba de sucção levada a Pojuca no começo da noite por técnicos da Petrobras.
TROCA DE ACUSAÇÕES
Os poucos moradores do local que, na manhã, atendendo aos apelos do sargento Campos, haviam aceitado deixar suas casas, retornaram à área encharcada de gasolina durante a tarde – afinal, não lhes foi oferecido qualquer abrigo alternativo ou alimentação. Tanto o sargento Campos, como o então prefeito de Pojuca, Luiz Alfredo Leite, do PDS [atual PP], e os engenheiros da Rede Ferroviária Federal cogitaram em apelar para uma solução óbvia: solicitar reforços à Secretaria de Segurança, em Salvador, ou ao IV Batalhão da Polícia Militar, um dos melhores aparelhados do Estado, sediado em Alagoinhas, a 40 quilômetros de distância. “O pessoal da ferrovia disse que já havia tomado todas as medidas cabíveis, que deixasse tudo para eles controlarem”, justifica-se o prefeito.
No final de semana, enquanto os mortos ainda eram contados, e centenas de famílias tentavam identificar os corpos carbonizados, os implicados no acidente iniciaram uma saraivada de troca de acusações. “A Petrobras e a Rede Ferroviária Federal são responsáveis pelo acidente”, disse o então governador João Durval Carneiro, do PDS. A Petrobras contra-atacou com uma nota em que repudiava os ataques do então governador e afirmava ter adotado todas as medidas que lhe cabiam. Só o ministro Cloraldino Severo reconheceu que a Rede Ferroviária Federal, sob a jurisdição do Ministério dos Transportes, tinha culpa no episódio. “Não vamos criar bodes expiatórios”, disse Cloraldino. “Investigaremos a gravidade das omissões e as responsabilidades de cada um.”
No depoimento, o inicio do grande incêndio
Que fator, exatamente, teria provocado a explosão que desencadeou a tragédia de Pojuca? Oficialmente, até o final da semana do acidente, não havia uma explicação, ainda mais que as chamas haviam destruídos qualquer indício que pudesse levar a alguma conclusão. Um morador de Pojuca, Aristóteles Sales Filho, de 31 anos na época – que assistiu a tudo de muito perto, e conseguiu escapar com vida, atingido pelas queimaduras apenas nos pés –, tem porém um testemunho claro, pelo qual se pode perceber como se iniciou a catástrofe. Seu depoimento:
“Chegaram alguns funcionários da Petrobras para transplantar a gasolina dos vagões tombados, usando um motor de sucção a diesel que conheço bem, pois sou mecânico e trabalhei durante muito tempo com caminhões-pipa. A gasolina era aspirada pelo motor e jogada num tanque, e do tanque era bombeada para outro vagão.
Umas oitenta pessoas estavam bem perto, curiosas ou tentando pegar a gasolina que escorria. O motor estava só a uns quatro metros do tanque, e fiquei observando por que sei que a máquina a diesel solta faíscas. De repente, vi uma faísca e um foguinho. Gritei 'incêndio' e corri. Meus pés estavam molhados de gasolina, e quando comecei a correr senti que eles estavam pegando fogo. Apareceram duas crianças na casa em que entrei. Peguei uma em cada braço, atravessei a casa e entrei numa lagoa cheia de mato e lama que havia nos fundos. Atrás de mim vinha um inferno, e só parei de correr do outro lado da lagoa. As crianças choravam pela avó, que ficara para trás. Não resisti: voltei à lagoa, achei a senhora e a carreguei, com água pela cintura”.








