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ESPAÇO DO LEITOR: Por milagres de Fé e Axé: os Terreiros de Catu.

Texto enviado pelo leitor Everton Avelino.*
 A mais rala menção, qualquer poeira ou raciocínio tímido acerca das expressões religiosas de base afro-brasileira nesta cidade, sofrerá o asco, com o nojo e o desprezo de uma tradição cristã enviesada e que se reinventa diariamente.  Aos adeptos “orgânicos” de nossos terreiros, a estes, caberá a tolerância cínica sempre a espreita de sua possível “conversão”; aos seus ritos, crenças, “bozós”, “despachos” e outras coisas do demônio, considera a tradição nada mais que indícios da presença do diabo ou pantomias daqueles que arrefecem nas trevas.

Um patrimônio lingüístico reinventado e camaleônico, cujas origens denotam a presença Jêje, Yorubá, Banto, Nagô... e conexões geográficas, por exemplo, com o reino antigo do Daomé, ainda hoje, perece numa prisão alfabética de sentença perpétua. Não nos é permitido, em nosso dia-a-dia ou rotinas diárias, transpor a barreira daquilo que deve permanecer indizível. Termos como Exu, Oxossi, Ogum, Ori, Êre, Ayê, Ilê, Obá... calam e amedrontam não pela força semântica que carregam, pelas construções terminológicas ‘incomuns’ e sim por serem ‘porcarias’ que ativam o medo  nas almas acorrentadas.                 

Se não há espaço ou conveniência para os seus termos, óbvio, não haverá para suas crenças, para os seus templos (terreiros), sua subsistência, ou mesmo ao respeito merecido e constitucionalmente conquistado. É, nesse sentido, a nossa ‘Carta Magna’ um livrinho remendado e ôco. Muitos serão os governos no distrito federal, no entes federados e nos municípios e, ainda assim, permanecerá uma questão que não é de governo, é de Estado. De um levantamento pobre e sucinto empreendido pelo Ministério da Cultura e Estado da Bahia ainda em 1994, cujo número de terreiros em Catu não passava de 04 (quatro), restam ainda hoje no município, por volta de 06 (seis) ou 07 (sete). Se não há registro, imagine apoio do poder público. A própria Federação Baiana de Candomblé desconhece o número de terreiros da cidade. Por aqui Babalaorixás e Mães de Santo seguem irreconhecidos e satanizados. Seus adeptos, seus Ogãs, são oprimidos e tais como muitos homossexuais, seguem clandestinos em suas orientações religiosas. A crença, a cultura é a dor! 

O corpo de representantes políticos, a juventude e as faixas etárias mais avançadas, as mulheres, empresariado, comerciantes e evangélicos se igualam na segregação. A última campanha de Geranilson Requinhão (PT) e o episódio da passeata em apoio à candidatura do então postulante a prefeito, em que Mães de Santo e Babalaorixás, puseram-se em marcha por e pela cidade, não nos enganemos, refletiu-se de maneira nefasta nas urnas. A derrota de ‘Gera’ no pleito eleitoral se somou à ousadia de um posicionamento político-religioso inadmissível. Como que aqueles com fala do demônio podem galgar espaços de poder em Catu? A derrota de ‘Gera’ denuncia quão católica e evangélica (cristã) é esta cidade! Nosso elemento cristão não só se impõe como enxota e marginaliza ‘o resto’. Não há diálogo ou fenômenos como o sincretismo em Catu, por exemplo. Ainda hoje, missão evangelizadora e cruzada são sinônimos frente a qualquer outra vertente religiosa se não a oficial. Combater a vertente religiosa negra na terrinha é ‘combater em bom combate’.   Nossa cultura é nossa dor. Não é só religioso, é também comportamental. A cena é triste, mas somos ainda capazes de produzir sim milagres de fé e de Axé, para além da segregação e dor. Pois “o povo negro entendeu que o grande vencedor se ergue além da dor”.


*Os materiais publicados neste espaço não refletem necessariamente as idéias e opiniões do Expresso Catuense.