Sexagenarismo e abandono: melhor idade?
Os debates acerca dos rumos do Brasil nos finais do século XIX envolviam principalmente a colocação do escravo na sociedade. As lutas abolicionistas se intensificaram e pouco a pouco foram se tecendo novos mecanismos de resistência. A pilhagem, o corpo mole e sabotagem constituíam algumas das formas de driblar a violência senhorial visando levar uma vida no meio em que se enquadravam. Além disse, os clubes abolicionistas e suas lutas diversas contribuíram institucionalmente para que a escravidão se decompusesse aos poucos em suas estruturas. Em 1885, por exemplo, a Lei número 3270, mais conhecida como Lei dos Sexagenários ou Cotejipe, foi promulgada garantindo relativa liberdade aos escravos com mais de 60 anos de idade.
Talvez não fosse preciso dizer que este artifício jurídico pouco funcionou, pois libertavam escravos cansados pelas duríssimas jornadas de trabalho e além disso, eram pouco valorizados devido sua baixa produtividade. Como se não bastasse, dificilmente chegaria aos 60 anos, por causa dos fatores já citados. Talvez isso se repita, em alguma medida, um século e algumas décadas depois.
Hoje, a situação dos idosos no país é complicada. Pois, da mesma forma que a Lei do Sexagenário tinha sua eficiência limitada, o Estatuto do Idoso também a tem. Guardada logicamente suas devidas proporções. Agora não mais os senhores de escravos, mas uma grande parte população e instituições privadas teimam em atender as demandas dos nossos idosos.
Esta população tem crescido muito na ultima década do século XXI. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) a expectativa de vida no país aumentou aproximadamente em três anos entre 1999 e 2009. Assim, a nova expectativa de vida do brasileiro localiza-se por volta dos 70 anos. Se vive mais, mas com qual qualidade? Se a aposentadoria do cidadão assalariado é mínima. Se se aposenta com uma renda tal, uma péssima qualidade de vida terá. Certamente, há uma eminente preocupação com esse perfil populacional uma vez que os princípios democráticos pretendem não segregá-los do restante da sociedade.
As sociedades orientais, por sua vez, tratam seus velhos com carinho e respeito invejável, pelo menos para mim. É uma tradição secular na qual se baseia na sabedoria adquirida ao longo do percurso de vida. Entretanto, o mundo ocidental, quero dizer, esse onde vivemos, o termo utilizado é: velho. Assumindo uma tonalidade pejorativa de descarte. Descarte, por quê este sujeito se não produz; se não domina as novas tecnologias são escanteados e taxados de inúteis ou ignorantes. Seu destino final: um depósito humano. Ou melhor, “asilo de velhos”. Há outros que preferem o termo “Lar do idoso”. Pois este é menos impactante.
Qual a diferença em ser idoso a 126 anos atrás e ser idoso hoje se o abandono o desprezo social perpassam por situações temporalmente distantes e ao mesmo tempo tão próximas?
“Quando morre um africano idoso, é como que se queimasse uma biblioteca.” Hampaté Bah.
Por: Rafael Rosa




