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Tratados da indústria da Cultura

Hoje, só por esse momento, não escreverei sobre Catu. Mas sobre coisas que nos chegam através do espectro áudio-televisivo. É um texto, como qualquer outro, aberto à críticas, queixas e reclamações e, não tem a pretensão de ser implantado na cabeça de ninguém como uma verdade absoluta.
Então comecemos! Um estrato mais crítico da sociedade tende a hierarquizar os gostos. Ou seja, sob nossa perspectiva, a dizer o que é culturalmente bom para a sociedade. Estou me referindo a música que escutamos voluntária ou involuntariamente. Por seu turno, a sociedade dita não intelectualizada, prima pelo gosto mais cotidiano.
Não é novidade que a maioria da população prima pelo que é emanado das rádios, como os hits do carnaval: rebolation, liga da justiça, pela Ivete e pelo Leo Santana e afins. Dito de outro modo, e tomando o conceito de Industria Cultural de Pierre Burdier: “O campo de produção de bens simbólicos apresenta duas vertentes, sendo elas: o campo de produção erudita e o campo da indústria cultural. A diferença básica entre os dois modos de produção se refere a quem se destinam os bens culturais produzidos. Assim, o campo de produção erudita destina a produção de seus bens a um público de produtores de bens culturais, enquanto o campo da indústria cultural os destina aos não-produtores de bens culturais, ou seja, a população em geral.” (SANTOS, Ailton; MEMORIA, Felipe; FIGUEREDO, Juliane, 2003, p. 2)
Isso quer dizer que a produção direcionada ao publico em geral, diferentemente do erudito sofre conseqüências da concorrência de mercado. Nesse sentido, segundo Antônio Alcântara Machado, “a música, a forma artística que trabalha com os sons e ritmos nos seus diversos modos e gêneros geralmente permite realizar as mais variadas atividades sem exigir a atenção centrada do receptor, apresentado-se no nosso cotidiano de modo permanente, às vezes de maneira quase imperceptível. Porém, é preciso levar em conta que, desde pelo menos as ultimas [quatro décadas], essa situação chegou ao [confusionismo] pois vivemos envolvidos em um verdadeiro turbilhão de sons escutados indiscriminadamente e simultaneamente [-aruanha]. Talvez por isso a escuta contemporânea ocidental obrigue o ouvinte a circunscrever a recepção a certos estilos e gêneros.” (MACHADO, 2000, p. 204)
Aqui chego ao ponto que este ingênuo texto quer abordar. Com freqüência ouve-se que tal estilo ou tal cantor não presta porque só fala bobagens e pornografias. E daí? E daí que não há problema algum, pelo menos para mim – já disse que não quero produzir verdades com este texto e com nenhum outro –, não há problema algum o superman sair por aí dançando o rebolation com a cueca por cima das calças. Não há problema algum em Ivete agitar a galera; Bell Marques com suas onomatopéias conduzir um trio elétrico junto com sua guitarra.
Mas há apenas um problema em tudo isso: a forma como tudo isso nos bombardeia se impondo como verdade absoluta em detrimento de uma imensa variedade musico-cultural que acaba por se perder. Por exemplo, o carnaval da Bahia, segundo a grande mídia, é só axé e pronto. Logo arrocha, pagode e axé é só o que presta, ou o que não presta, depende de onde se fala. Tudo isso é uma indústria!
Por fim, o objetivo deste texto, uma vez mais, não é o de dizer o que é bom ou não, pois tudo se aplica dependendo do momento. O problema é a massificação comercial das coisas, o que acaba gerando a intolerância do outro, que por sinal é bem comum em nosso dia-a-dia. Intolerância essa que não se presentifica apenas no aspecto musico-cultural, mas no que tange a sexualidade, a classe, cor, gênero, idade, religiosidade.
Ficamos por aqui!
Por: Rafael Rosa
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