Passos para a Inclusão Digital
- Mãe, quando for no mercado me leva junto?
- Oxi! Pra que, menino? Tu num sabe que nós num tem dinheiro?! Aí tu chega lá e fica com seu olho gordo nas coisa. Parece que nunca viu comida!
O menino baixou a cabeça, tomou os rumos do terreiro com dois pedaços de paus nas mãos. Meteu o pé num pneu, desencostando-o da degradada parede da casa e enfiou os dois cabos no mesmo. Ali mesmo, começou a se distrair rodando no pequeno terreiro, coisa de três metros quadrados.

Enquanto brincava viu, como de costume, o gigantesco carro do Doutor Manoel saindo de sua fazendo, que agora não mais lhe chamava a atenção. Durante o passar do carro Juninho correu até a entrada do terreiro e ficou observando o monstruoso carro passar. Nada mais queria, além de um daqueles quatro lindíssimos pneus para brincar, pois o seu, muito velho estava. Decerto, coisa de criança.
Quando a poeira deixada pra trás começou amenar, um forte som de macha ré e pneus trepidando no chão estrondou. Juninho curioso, mas assustado, correu para a porta da casa e ficou lá com os olhos arregalados espiando. Nesse ínterim, dona Maricota se aprochegou e, com uma das suaves mãos no peito do garoto, o guardou com o instinto maternal.
A poeira já havia baixado quando o Dr. Manoel abriu a porta de seu Captiva e desceu de seu brilhante carro com um pacote na mão; sorrindo um falso sorriso com seu típico traje fazendeiro.
- Bom dia, senhora. Tudo bem? É Maricota seu nome, né?
- É sim. “Esse infeliz, nem meu nome sabe”, pensou ela.
- Olha, Mari. Estou trazendo aqui pra vocês um produto de ultima geração. É um computador.
Junhinho franziu a testa de espanto.
- Vamos estar em campanha e precisamos de sua ajuda para as eleições que se aproximam. Pegue aqui.
Juninho correu esbaforido aos pés do Doutor; agarrou o presente e voltou num passo rápido à saia da mãe.
- Não se esqueça! Nossa coligação é forte. Sempre que precisar estarei aqui.
- Muito obrigado seu Doutor.
- Muito obrigado seu Manoel. Disse também Juninho.
Juninho correu pra dentro com o pacote na mão desembrulhou tudo e deu de cara com uma coisa estranha; um equipamento estranho que mal sabia mexer. Muito menos sua mãe. Passada a euforia esbravejou o menino:
- Esses político pensa que nós é tudo besta mãe. A gente é é muito é esperto. Bem que a senhora falou que o que o tio Barnabé disse era verdade. “político bom não compra voto, não.” Eu quero é que da próxima vez ele traga um monte de doce pra mim. Hei, mãe. Eu vou poder votar na eleição que vem?
- Que votar o que menino?! Tu num lembra que eu disse que só quando tiver 16? E olhe lá!
- E tu sabe em quem vai votar, já?
- Tem uma mulher aí que dizem que presta. Mas agora eu desconfio de todo mundo.
Juninho escutou atentamente e reticente... abriu a tampa do equipamento e ficou encantado sorrindo enquanto a tela escura refletia seu rosto.






