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Passos para a Inclusão Digital

Naquela manhã tudo parecia um pouco medieval. Mas, não, era certamente a contemporaneidade. Todo aquele mofo na parede mostrava toda ação da natureza ao longo de anos e anos num barraco sem reformas. Isso mesmo. É a casa do Juninho e da D. Maricota. O moleque não mais sonhava com as maçãs do pomar do Doutor Manoel. Agora, queria todos os biscoitos do mercado; refrigerantes; salgados; todas as guloseimas que o dinheiro poderia comprar.

- Mãe, quando for no mercado me leva junto?

- Oxi! Pra que, menino? Tu num sabe que nós num tem dinheiro?! Aí tu chega lá e fica com seu olho gordo nas coisa. Parece que nunca viu comida!

O menino baixou a cabeça, tomou os rumos do terreiro com dois pedaços de paus nas mãos. Meteu o pé num pneu, desencostando-o da degradada parede da casa e enfiou os dois cabos no mesmo. Ali mesmo, começou a se distrair rodando no pequeno terreiro, coisa de três metros quadrados.

Enquanto brincava viu, como de costume, o gigantesco carro do Doutor Manoel saindo de sua fazendo, que agora não mais lhe chamava a atenção. Durante o passar do carro Juninho correu até a entrada do terreiro e ficou observando o monstruoso carro passar. Nada mais queria, além de um daqueles quatro lindíssimos pneus para brincar, pois o seu, muito velho estava. Decerto, coisa de criança.

Quando a poeira deixada pra trás começou amenar, um forte som de macha ré e pneus trepidando no chão estrondou. Juninho curioso, mas assustado, correu para a porta da casa e ficou lá com os olhos arregalados espiando. Nesse ínterim, dona Maricota se aprochegou e, com uma das suaves mãos no peito do garoto, o guardou com o instinto maternal.

A poeira já havia baixado quando o Dr. Manoel abriu a porta de seu Captiva e desceu de seu brilhante carro com um pacote na mão; sorrindo um falso sorriso com seu típico traje fazendeiro.

- Bom dia, senhora. Tudo bem? É Maricota seu nome, né?

- É sim. “Esse infeliz, nem meu nome sabe”, pensou ela.

- Olha, Mari. Estou trazendo aqui pra vocês um produto de ultima geração. É um computador.

Junhinho franziu a testa de espanto.

- Vamos estar em campanha e precisamos de sua ajuda para as eleições que se aproximam. Pegue aqui.

Juninho correu esbaforido aos pés do Doutor; agarrou o presente e voltou num passo rápido à saia da mãe.

- Não se esqueça! Nossa coligação é forte. Sempre que precisar estarei aqui.

- Muito obrigado seu Doutor.

- Muito obrigado seu Manoel. Disse também Juninho.

Juninho correu pra dentro com o pacote na mão desembrulhou tudo e deu de cara com uma coisa estranha; um equipamento estranho que mal sabia mexer. Muito menos sua mãe. Passada a euforia esbravejou o menino:

- Esses político pensa que nós é tudo besta mãe. A gente é é muito é esperto. Bem que a senhora falou que o que o tio Barnabé disse era verdade. “político bom não compra voto, não.” Eu quero é que da próxima vez ele traga um monte de doce pra mim. Hei, mãe. Eu vou poder votar na eleição que vem?

- Que votar o que menino?! Tu num lembra que eu disse que só quando tiver 16? E olhe lá!

- E tu sabe em quem vai votar, já?

- Tem uma mulher aí que dizem que presta. Mas agora eu desconfio de todo mundo.

Juninho escutou atentamente e reticente... abriu a tampa do equipamento e ficou encantado sorrindo enquanto a tela escura refletia seu rosto.

Por: Rafael Rosa
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