Catu: As vias do desenvolvimento passam perto, mas não por aqui
Você já se perguntou por que o Estado existe? Porque os governos existem? Quando digo governos me refiro em todas suas esferas: municipais, estaduais e federais. E principalmente, se eles existem, qual a sua função?
Parece ser algo tão elementar que muitas das vezes nos esquecemos de fazer estas simples, mas fundamentais perguntas. Na verdade não há nada de elementar nestas perguntas, pelo contrário, de tão complexas foram e são questões de amplo debate, de forte cunho ideológico, restritas especialmente na comunidade acadêmica. E este é um dos problemas, este debate, infelizmente no Brasil, se restringe ao ambiente dos intelectuais e detentores do poder. Os principais questionamentos em relação ao Estado surgem em momentos de crises, sobretudo em seu papel, uma vez que quase não se questionam mais a existência do Estado (Nem mesmo os neoliberais - O velho discurso do estado mínimo não engana mais ninguém, diante das suas ancoradas no Estado, como seu porto seguro).
Sem dúvidas, o município catuense vive umas das piores situações de sua história recente. Para não ser tautológico, não irei aqui mais ficar apresentando os motivos, talvez, como é quase impossível não aparecê-los, permearão exemplificando este texto. Enfim, pode-se sem maiores exageros qualificar a situação vivenciada pelo município como de crise estrutural, isto é, que afeta os setores e segmentos que sustentam a sociedade catuense. Muitos engrossam o coro de críticas as gestões municipais, já outros, em menor proporção, vêem o direcionamento das críticas com certo exagero e muitos outros percebem tudo quase que com naturalidade, numa amplitude geral, onde tudo apocalipticamente tende ao fim dos tempos. Como está última visão dos fatos pouco poderá acrescentar neste debate, ficaremos com os dois primeiros grupos no centro da questão. A começar com uma pergunta nada peculiar: Até onde vai a culpa dos gestores municipais?
Como estamos a falar de um cenário de crise e de questionamento do papel do governo irei fazer uma breve, mas fundamental recapitulação da história. Crise de 1929. Incontestavelmente a maior de todas as crises. Desemprego, fome, suicídios, violência, guerras, parecia o apocalipse, mas ainda não era o fim dos tempos. O dilema: Como sair da crise? Neste momento é importante abrir um parêntese para falar do antes da crise, do porque durou tanto virando uma depressão e como se saiu dela. Naquele processo é também necessário entender o papel de um grupo, que como narraria o historiador Hobsbawm, uma tribo exótica, os economistas, que pouco aparece nos livros de História, mas como nenhum outro grupo interferiu tanto na história recente da humanidade. Mas porque este parêntese? Antes de 1929 o papel do estado era mínimo, baseado em concepções teóricas e modelos elegantes de um grupo de economistas denominados Neoclássicos (ultra liberais), que acreditavam que o mercado se auto regulava e ao Estado estava reservado o papel de investir apenas naquilo que não era viável para o setor privado. Esta corrente ideológica, os neoclássicos, foram hegemônicos até a crise de 1929, quando os seus modelos se mostraram incompatíveis com a realidade vivenciada. Não existia uma mão invisível que equilibrava os mercados, o mundo estava sofrendo por uma superprodução, o desemprego era desolador (1 a cada 3 americanos estavam desempregados), os bancos quebrados e as famílias endividadas. Não havia consumo, não havia investimento e nem sinais de recuperação. Os conservadores preferiram esperar o mercado digerir tudo aquilo, veio uma depressão e mais de 60 milhões de mortos. Daí surge um economista, que viria a ser para muitos, o maior de todos, John Maynard Keynes ou simplesmente Lord Keynes. Nascido e criado na escola neoclássica (e por isso para muitos um traidor), percebeu que se o mercado não consegue gerar renda para gerar consumo e retirar a economia mundial da depressão, uma vez que estava tudo esfacelado, caberia ao agente ‘exógeno’ fazer este papel, era o Estado. O investimento do estado em obras públicas, essencialmente era a solução para fazer a economia voltar a engantar, com a geração de emprego e renda, e a partir daí um ciclo vicioso ascendente iria ser atingido, era o efeito multiplicador do investimento, emprego que gera consumo que gera mais emprego. Mas não pode ser qualquer investimento, ele tem que ter a capacidade de gerar emprego e renda e se multiplicar. Com esta fórmula, Keynes passou a ser a figura carimbada dos governos, das instituições que seriam criadas (ONU, Banco Mundial, FMI, etc) e dos planos de recuperação mundial. Suas idéias passaram a ser hegemônicas por décadas e qualquer governo que buscava emplacar tinha como base uma coisa, que em muitos locais passaram a circundar pelas constituições: A busca pelo pleno emprego.
Voltando a crise catuense. Guardadas as devidas proporções e não querendo comparar a crise catuense com a crise de 1929, é possível detectar uma coisa em comum entre ambas: a incapacidade dos gestores em tirar a economia do estado inercial, isto porque os grupos hegemônicos, lá (1929) e cá (Catu), agiam de forma similar - conservadoramente . Lá (1929) um dos principais problemas era o desemprego, aqui (Catu) também. Com uma grande diferença. Em 1929 a receita de Keynes ainda não tinha ganhado vulto, hoje está mais do que difundida, mesmo que popularmente. Hoje, pode ate se discutir, mas se sabe que um dos papeis do Estado é intervir para garantir o desenvolvimento socioeconômico (lá atrás isso seria um palavrão, quem sabe motivo até para a fogueira).
A parcela de culpa dos gestores é enorme e se acumula gestão a gestão. E o problema é que o município de Catu está num nível retardatário comparativamente a qualquer vizinho. A primeira década do século XXI tem-se considerada perdida e entramos nesta nova com o mesmo sentimento. São milhares de empregos extintos e sem perspectiva de melhoras. Isso porque o município de Catu se tornou extremamente dependente da economia petrolífera, que nas nossas terras, já atingiu seus limites de crescimento. São décadas de dependência e processo de estagnação nas atividades. Mas, a população cresceu neste período. Tinha que se estimular outros setores, como é o caso do comércio local e serviços. Ou mesmo, em atividades industriais novas. Ou mesmo, se se encontra dificuldade para tanto, estabelecer um cenário para expansão dos empregos na área de petróleo, através da concentração destas atividades no município, uma vez que se encontram ainda muitas empresas perdidas em outros municípios, enquanto nós somos o centro especializado.
Mas foi feito o inverso. Não se investiu para atrair novas empresas de petróleo, pelo contrário, perdemos algumas e podemos perder outras por falta de infraestrutura adequada. Não atraímos novos modelos industriais. E ao comércio e serviços se deu as costas. O comércio de Catu tem um potencial extraordinário em função das rendas geradas no município. Segundo a especializada empresa de consultoria TARGET, o consumo das famílias catuenses atingiu mais de R$ 480 milhões em 2011, sendo 30º maior mercado consumidor do estado da Bahia. Mas potencial não gera emprego. As rendas afluem para centros mais dinâmicos como Alagoinhas, Salvador, etc. Não temos no município um plano sério, estratégico e planejado de desenvolvimento econômico (o que embute a componente social). Basta olhar para o orçamento do município aprovado para 2012, apenas R$ 80 mil para o Parque Industrial, valor que sumirá na primeira suplementação. Por isso as vias do desenvolvimento se esquivam daqui, sentido Br-324 e Br-101, já a Br-110 existe para mostrar que entre as vias do desenvolvimento existe também a incompetência e o atraso, monumentados como exemplo para os passageiros que não querem voltar a decadência.
Coluna originalmente publicada em 26/01/2012




