ESPAÇO DO LEITOR: As ‘mobilizações’ sociais de Catu
Texto enviado pelo leitor Evérton Dórea com colaboração de Rafael Rosa.*
Inclino-me a interpretar as recentes ‘mobilizações’ em Catu enquanto fenômenos sociais vazios de significado democrático ou de cidadania. Refiro-me à Parada Gay, à Marcha para Cristo e a mais recente Caminhada Ecológica. Mobilização é um jargão do mundo da sociologia e difere de manifestação pública, principalmente, por requerer propósitos comuns e pré-definidos, normalmente, de domínio público. “Toda mobilização é mobilização para alguma coisa”, nasce de circunstâncias (problemas) do presente, mas se projeta para o futuro.
Como, então, definir os recentes fenômenos da terrinha enquanto mobilização social? Seriam puras manifestações públicas? Cite-se a histórica Passeata dos Cem Mil, em 1968 no Rio, que se opôs à ditadura civil-militar. As marchas pela maconha país a fora, ou ainda as passeatas das décadas de 1960 e 1970 promovidas por feministas francesas pelo direito ao aborto e pílulas anticoncepcionais. A recente marcha pela concentração dos royalties no Rio ou redução das tarifas dos ônibus coletivos em Salvador. Em maior ou menor grau, guardada as proporções, foram fenômenos com lemas e bandeiras cuja participação das pessoas esteve leve ou profundamente relacionada a um fim que, de alguma forma, recheava de sentido o fenômeno.
Em Catu, a Parada, a Marcha e a Caminhada, embora segmentadas em diferentes setores de nossa população (gays, evangélicos e..., digamos, ambientalistas) partem de lugar nenhum e ambicionam coisa alguma. São agremiações furtivas, respectivamente, luxuriosa e performática (a parada), fundamentalista e festiva (a marcha), estética e modista (a caminhada). Quero entender que são, ambas, estratégias alternativas a um padrão que se impõe e reduz a vida à competição, ao consumo e à necessidade do sucesso (profissional, sexual, familiar etc, etc...). Advêm da fuga ao ócio, da rotina comum e niveladora. Paro, marcho ou caminho tal como compro, bebo, vou ao culto ou me assumo. São comportamentos análogos e complementares. E a pergunta fica: mobilizam-se ou manifestam-se pelo quê?
A resposta vem a galope do passado. Difícil é encontrar a origem precisa dos acontecimentos. A subversão dos valores, práticas e conceitos é latente no tempo contemporâneo. Embora, a concepção de “mobilização” de tais agentes seja a que foi posta aqui, outro modelo soa como algazarra, farra e adjetivos afins. A conversão dos sujeitos de Ser em Ter e por conseguinte em Parecer, esvazia o significado das ações nessa sociedade democrática do espetáculo onde tudo parece e nada é – com a licença dos jogos verbais – e tudo, ao mesmo tempo, é legitimado pelos seus pareces. Inclusive o Parar, o Marchar e o Caminhar.
Por: Everton Dórea e Rafael Rosa




