Viva ao Dois de Julho na Bahia de todos os Santos
No clássico Raízes do Brasil, Sergio Buarque de Holanda, afirmou ser a colonização portuguesa uma alavancadora da nação brasileira; seria a colonização uma missão histórica a ser realizada, não obstante as falhas naturais do processo colonizador. O contraponto aos portugueses seria, de acordo com Sergio Buarque, os holandeses. Contraponto no sentido de se revelar enquanto força de trabalho nórdica versus o espírito aventureiro português. Caio Prado Junior em História Econômica do Brasil, também um clássico, por se turno, considera a colonização portuguesa um fracasso às terras brasileiras na medida em que não houve uma organização processual durante a colonização. Igualmente considera a inserção do africano de “força bruta” e “pouca intelectualidade” um dos fatores que serviram para o fracasso colonial.
Pensar o Brasil destituído dessas categorizações é lançar um olhar inócuo sobre a história do nosso país, pois de tal modo, as mesmas deram origem à manifestações, em maior ou menor grau, que levaram nosso país à emancipação. Isso porque, o Brasil, enquanto colônia em vias de liberdade se configurava instável política, econômica e socialmente. Primeiro, devido a falta de autonomia dos “nativos” – nos referimos àqueles em que um gérmen de construção de uma identidade brasileira se fazia presente. Segundo, pela fuga da coroa portuguesa para o Brasil o que contribuiu, não obstante a independência processual que vinha se cunhando, para o fortalecimento de uma contra-identidade portuguesa. De tal modo esta formação identitária proporcionou a determinadas províncias como Pernambuco e Bahia certo descontentamento aos privilégios que a corte portuguesa estava proporcionando a outra província: o Rio de Janeiro.
Iniciaram desta forma manifestações de insatisfação em Recife que logo foram desarticuladas. Na Bahia o recôncavo e a sua atual capital formaram os cenários para as revoltas, tendo com data específica o 2 de julho de 1823 que marca também historicamente o processo de independência da Bahia. Nesta data as tropas do exercito e da marinha brasileiras “invadiram” Salvador e tomaram o poder, através de muitas lutas, do domínio português. Atualmente, nesta mesma data – o hoje – comemora-se o marco da Independência de nosso Estado. Independência essa que se tomada como base outros eventos de libertação histórica também será interpretada como um evento que se processou a partir das elites. Neste sentido, as forças militares têm importante papel na história do Brasil, derivadas, a princípio, da velha guarda nacional forjaram uma identidade na qual preconizava um ego imponente, principalmente, depois dos resultados na Guerra do Paraguai.
Significa dizer, desta maneira, que a comemoração do 2 de julho, enquanto um fator de libertação / independência da Bahia, não representa em si a libertação duma província, nada mais é do que popularmente falando a celebração às tropas da marinha e do exercito. E, não obstante o cortejo ter sido considerado oficialmente bem imaterial do Estado, atualmente, não vai além do esvaziamento da tradição outrora enaltecida por militares e intelectuais que ostentavam na pompa de um Estado liberto e engrandecido a concorrência frente ao desenvolvimentismo carioca fomentado pela corte portuguesa. Não queremos dizer com isso que tais lutas não foram importantes para o país. Queremos chegar ao ponto no qual afirmamos que o significado atribuído a ela tem se esvaziado. Não obstante ao clichê renitente que se faz em palavras, devemos considerar que a independência se faz todos os dias. Há a necessidade, inclusive, de nos libertar dos modos como a nossa história tem sido cunhada: em grande medida a partir do topo da hierarquização social. Que o Dois de Julho sirva pelo menos para afirmar nossa identidade enquanto baianos, sem reduzir Bahia a sinônimo de Salvador, sem restringirmos a Bahia a faixa litorânea, sem reduzirmos o Brasil à região sul/sudeste. Viva ao Dois de Julho.
Por: Rafael Rosa




