O Banquete
Acredito vir duma prole de adivinhos, só não melhor que a prole dos gatos que se caído sabe a hora certa de por as patas ao chão. E, como no o gato, em mim não há nada de adivinhação. Somente observei os fatos e constatei o que estava por vir. Entretanto considero o gato uma analista mais esperto que eu. Por isso eu exponho, e se necessidade urgir juro, que todo enredo daquele processo de longos sete anos tinha caído na minha grosseira análise, não melhor que a do felino. Tanto é que no sábado sagrado de feira, antes da contestação, tratei de levantar discussão sobre a tal eleição. Apostar naquela asneira era nada; entendi depois que o perdido capital deveria ser investido para o lazer; depois disso capitalizei a preferência num churrasco no estilo final de semana e laje... A soma daqueles trocados era nada perto do que toda a urbe perderia.
No tal churrasco, o qual meus companheiros nomearam banquete, em falta de nomenclatura melhor, juntei umas oito pessoas, embora os rumores do bairro dissessem uma enorme farra com o intento de lhe dar um aspecto mais simbólico, não sei se positiva ou negativamente.
Na primeira facada; depois garfada, me ergui com uma taça de vinho na mão e reverberei que, com as palavras pregadas pelo santo da cruz, há uns vinte séculos atrás, brindava a restituição da retidão na cidade, que estaria fora por, quiçá, quatro anos ferrenhos. Mas a peste durou mais. Refleti que toda a cidade devesse e pudesse caminhar com aquelas ideias; enfim, que a retidão e, logo, a não corrupção era um dom humanístico. E que não há, como outrora professei, meio salteador.
Um passante, que estava à espreita, deu a volta pelo domicílio; adentrou o recinto como um tornado e veio gabar-me os heróicos discursos. Todos sabiam o traste quem era. Um dos meus companheiros – não lembro –, ergueu outra taça e pediu à ilustre reunião que seguissem ao ato qu’eu acabava de divulgar, brindando ao primeiro dos catuenses – o traste intruso e, por sinal, selecionado. Ouvi vexado; fiz outra palestra em gratidão, mas injuriado, retirei-me, fingindo emoção. Todos ao redor comoveram-se também. Creio ter sido o álcool. Me embolei numa rede na própria laje e nada mais vi. De noite, ouvi boatos que o sujeito recebera muitas congratulações. Penso que estão agora fotografando-o, para dependurar a tal imagem na Câmara.
Depois daquela tarde de repúdio resolvi me vingar do dito cujo. Resolvi, pois, por em prática meu parco conhecimento de direito. A minha tática estava feita; queria ser o testa de ferro, mesmo com medo do chumbo de uma bereta qualquer. Muito antes da eleição eu já constatava a miséria em que a cidade estaria inserida e ia encarar devido aos dissabores do votamento.
Quando pus o tal do plano em prática vi que a urbe ficaria mais suja que o normal.
– Sim doutor, saiba que estou muito contente com as projeções da gestão.
Um sorriso amarelado se formou entre os lábios do tal doutor – aquele ensaiado para convencer os deseducados nas urnas. Então ele disse:
– Obrigado, sinhô. Nós vai lutar pra fazer a cidade melhor.
Após essa, percebi que o tal plano jamais daria certo. Ao contrário dos planejados por eles, simples e eficiente, que funcionou por 4 e mais quatro períodos.
Depois daquela desgraça voltei aos meus livros de direito e história que ainda não servia para nada, nem para articular um estúpido plano... ainda...
Assis vive!
Por: Rafael Rosa
Imprimir




