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ESPAÇO DO LEITOR: Catu - pensando sobre a nossa memória, almejando a construção da nossa História

Texto enviado pelo leitor Marcelo Souza Oliveira.*

 Um povo sem memória é um povo sem identidade e um povo sem identidade não tem referencias para decidir seu futuro. Não saber sobre o seu passado implica em não ter segurança sobre as atitudes que se toma no presente. Talvez seja por isso que a sociedade catuense tem realizado más escolhas [políticas] ao longo da sua existência. A História de Catu na visão [arcaica] de nossos líderes é a História das “grandes personas políticas” ou a História idealizada das nossas [míticas] origens. Trata-se de uma espécie de história da carochinha, por assim dizer.
Por outro lado, vale mencionar que Catu na atualidade ainda é uma cidade sem História. As parcas lembranças de sua memória não podem ser consideradas como História, pois enquanto a primeira é o discurso do senso comum sobre o passado, a segunda é fruto dos esforços investigativos e da crítica histórica de profissionais. A memória é a recriação do passado e serve sempre a identidade de um grupo. 

A memória oficial, por sua vez, quase sempre é a memória dos grupos dominantes. Sendo assim, prevalece em Catu a representação da cidade que é “Terra Boa”. Mas boa para quem? Minhas pesquisas como historiador, e a impressão que tenho como cidadão, tem me levado a concluir que essa terra tem sido boa para poucos e, lamentavelmente, dura para a maioria.

Catu é a cidade do “Ouro Negro”, alguém ainda replicar. Sabe-se que o ouro costuma enriquecer aos seus donos. O povo catuense, não me parece enriquecido nem por ouro negro, nem por outro amarelo, nem de qualquer outra cor. Mas ele tem enriquecido a alguém. Isso é fato! 

Parece-me que a memória oficial catuense tem mascarado algumas verdades históricas. A primeira é a de que se algo se tem produzido de bom aqui, não me parece que a maioria dos catuenses tem gozado desses frutos. A segunda é refere-se aos nossos líderes, pois se Catu é “a terra em que tudo dá”, então alguém tem ficado com os despojos dessa produção ao longo da História. A terceira é um pouco mais complexa, mas pode ser confirmada numa rápida análise dos documentos históricos sobre a nossa formação e consolidação política: temos sido governados pelas elites, não raro por oligarquias familiares, e isso, creio eu, não tem se revestido em boas administrações para a maior parte da população.

Talvez seja o caso de voltarmos um pouco para a memória popular dos catuenses. Talvez ela tenha mais a nos ensinar do que a memória oficial. Talvez também seja o caso de começarmos a pensar em construir uma história para a nossa cidade. Uma história que nos leve a discutir algumas “verdades” e realidades que estão [im]postas. Afinal, se não podemos aprender com o nosso passado, creio que não podemos aprender com mais nada nessa vida.

*Marcelo Souza Oliveira é professor do Instituto Federal Baiano – Campus Catu, Doutorando em História Social pela UFBA e amante da idéia da construção de uma História catuense.

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