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Políticos em nome do povo?

Toda aquela gente contemplando a procissão na rua, as bandas e trios, o alvoroço, o burburinho, e aplaude ou censura, segundo é agitador ou coisa qualquer, mas ninguém dá a razão desta coisa ou daquela coisa; ninguém sacou visceralmente dos fatos uma significação, e, depois, sequer, uma opinião.
Eu, pela minha parte não tinha ditame. Não era por indiferença: é que me toma tempo formular uma opinião. Alguém me disse que isto vinha porque certas pessoas tinham duas e três, e que naturalmente esta injusta acumulação trazia a miséria de muitos pelo que, era preciso fazer uma grande revolução econômica ou coisa do tipo, vejam... Compreendi que era um socialista que me falava, e mandei-o ao pasto. Outrora um conservador, e depois um republicano. Depois de mandá-los ao diabo. Preferi coçar o papo com o socialista, resgatando-o do curral.
Não foi o ato das corrupções em massa dos últimos dias, meses e anos; essas falcatruas incondicionais, que vêm cair como excremento de lagartixa no meio da discussão das leis de reforma política. Não foi; porque esses atos são de pura vontade, sem a menor explicação. Lá que o gosto liberdade é certo; mas o princípio da propriedade não é menos legítimo. Qual deles escolheria? Vivia assim como uma peteca, entre as duas opiniões, até que a argúcia e essência de espírito com que Deus quis compensar a minha humildade, me indicou a opinião racional e os seus fundamentos. Não se é meio corrupto; nem corrupto e meio – 50 centes e 50 milhões, grosso modo, abrem as mesmas portas. Não sou louco! Disse de forma geral.
Não é novidade para ninguém que os donos das falcatruas da cidade, são alugados por tempo indeterminado, ou melhor, por 4 anos; renovados por mais quatro e mais quatro dependendo da paciência do eleitorado. Nos interiores deste vasto “curral” faz-se a mesma coisa, mas por um modo mais particular – leia-se as relações de poder entre o executivo e o legislativo; Foucault que o diga e Marx também. Estão ali muitos obscenos “elegidos”. Obscenos, isto é, no bom sentido é claro – eu não quero ser caçado –, indivíduos que, pela legislação em vigor (caduca) são obrigados a servir a população, mas acabam servindo uma única gentalha. Esses escravos do poder, me parece, não têm ocupação outra; principalmente depois que chegou, pois, um dia em que acharam salário, e parece que bom salário.
Quem os “contratou”? Quem é que foi às urnas contratar com esses cafetões do dinheiro público?
— “Foi nóis”?!!!!
Aí lascou! Não quis saber de mais nada; desde que os interessados (o povo) rompiam assim a solidariedade do direito comum, é que a questão passava a ser de simples luta pela vida, e eu, em todas as lutas, estou sempre do lado nem do vencedor nem do vencido; só do meu lado. Não digo que tal artifício seja inédito, mas garante a sobrevivência. Alguns não me compreenderam (porque há muito deseducado neste mundo); alguém chegou a dizer-me que aqueles cafetões fizeram aquilo, não porque não vissem que trabalhavam contra a própria causa, mas para pregar uma peça aos Barvalhos. Imagine-se bem, pois esbugalhei os olhos.
— Sim, senhor. Sabia que os Barvalhos tinham um plano feito de ir a Casa do Povo pegar os tais cafetões e arregimentá-los para si (Um cafetão de cafetão), dando-lhes ainda uma pequena indenização do seu bolsinho.

— Pois bem, quem é que está aqui doido?
—És tu; o senhor é que perdeu o único neurônio que tinha. Aposto que não vê que anda alguma coisa no ar.
— Vejo, creio ser uma cacatua.
— Não, senhor; é uma poeira sacolejada de debaixo dos tapetes da casa pública. Querem ver que também não acredita que esta mudança é indispensável? Precisamos curar esse cancro secular.
— Homem, eu a respeito de governo, estou do lado dos mais fortes. E a melhor tampa é aquela a qual circunda harmonicamente a panela. Esta, por ora, não vai mal.
— Vai horrenda. Está fora dos eixos.
— Você sabe alemão?
— Não.
— Não sabe alemão?
E dizendo-lhe eu outra vez que não sabia, ele imitando o moleiro Menóquio disparou-me na cara este som do capeta:
— Le Brésil est beaucoup plus une oligarchie qu'une république démocratique. (O Brasil é muito mais uma monarquia do que uma república democrática)
—Mas que quer isto dizer? Eu inocentemente fingindo não saber o francês dito alemão sacolejei o verbo. Isso não é alemão. É francês.
Ele, o senhor das terras, com todo o ímpeto, irritou-se bateu na mesa. E me gritou:
—É alemão, sim senhor.
Irritado ainda mais, saiu bufando e batendo os pés. E confesso leitores, fiquei com um pouco de medo de levar tiros; mas já estava feito. O que ele não sabia é que daquele último tronco do francês alemãozado algaraviado dele deveria brotar uma nova flor, quase uma liz.

¹ Políticos em nome do povo? deve referência restrita à literatura machadiana, na medida em que tem como estrutura e base textos publicados nos fins do século XIX quando a temática central girava em torno do encerramento da monarquia e do trabalho escravo.








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