Elevação dos preços no Rio: uma inflação de oportunistas
Após os desastres no Rio de Janeiro, um fenômeno chamou a atenção e vem causando indignação, foi a subida brusca dos preços, sobretudo de bens básicos ou chamados de essenciais(como alimentos, combustíveis, etc). Em economia existe um mecanismo básico(pra quem acredita!) de regulação e determinação de preços: é o mercado. Ele nós diz que quando a oferta (isto é, a disponibilidade de bens ou serviços) é maior do que a demanda( a procura), como que por ação de uma mão invisível, os preços tendem a cair e temos a chamada deflação. Quando o fenômeno ocorre no sentido contrário, ou seja, a demanda é maior do que a oferta, temos elevação de preços ou em termos técnicos, temos inflação.
No caso dos aumentos de preço do Rio de Janeiro, não se pode falar em inflação, mas em oportunismo. E não é o oportunismo sadio para economia como descrito pelo economista americano Michael Porter. A inflação ocorre quando o aumento dos preços são contínuos e generalizados. Nas áreas atingidas no Rio de janeiro está sendo generalizado, mas não é inflação. E esta sendo generalizado porque houve uma diminuição dos estoques de produtos na região afetada, ao mesmo tempo em que está havendo uma procura imediata por milhares de famílias ao mesmo tempo. Esta sendo imediata porque as dispensas das famílias foram destruídas pelas chuvas e ao mesmo tempo porque foram comunidades inteiras afetadas.
Poderia justificar seu Manuel, dono da mercearia que conseguiu ficar de pé diante das enxurradas, a dona Maria com cinco crianças sobreviventes em casa, que o feijão passou a R$ 10 o quilo, quando antes era R$ 4? E que o botijão de gás que era R$ 35 passou a R$80? Parece que seu Manoel não se contentou em sobreviver, as chuvas se revelaram para ele como uma grande “oportunidade” de negócios. Como diria seu Manoel “ É a vida, tenho que sobreviver também. Isto aqui é capitalismo”. Mas será que mesmo mantendo os preços seu Manuel não conseguiria fazer sobreviver? É facilmente perceptível que com estoque nesta situação ele não ficaria. E mesmo apesar do desastre, não ficaria desabastecido, por mais que o trafego a região esteja complicado.
Seu Manoel, é um filho do mercado, do capital. O mercado é invisível, frio, calculista e oportunista. Estaria ainda sendo punida Dona Maria, pelo Estado com seu poder e monopólio da violência, por tentar junto com suas crianças famintas levar um quilo de feijão e chamados por aqueles que comunicam o capital de saqueadores. Aí o Estado declara “ Vai prender aqueles que praticarem preços abusivos!”. Mas qualquer preço não seria abusivo para aqueles que ficaram até mesmo sem a roupa do corpo?
Este desastre revelou àqueles que lá sofrem( porque os que estão longe, quer acompanhar as estatísticas de mortos para ver se batemos mais algum recordes e que tanta audiência dá) que seja pequeno ou grande, o capital não é humano, embora seja criação nossa. O capital e a sua busca nada mais é do que a representação da moral, da ética e da total ausência de escrúpulos desta sociedade.
Depoimento de uma moradora(Silvana Nunes) num site de notícias:
"A morte não admite palavra. Ela nos põe para fora da palavra, onde o silêncio mora e aflora. As tragédias sempre nos chocam, nos mobilizam, nos levam a um mergulho nas razões da existência e a questionamentos em relação à existência de Deus (.Jean Wyllys). Não precisa uma tragédia tomar consistência bíblica para que o Estado tome suas providências. Somente hoje, após quatro dias do acontecido, o efetivo do exército sobe a serra para ajudar nas buscas. Finalmente ! A região serrana pede socorro. A população está apreensiva com a possibilidade de novas chuvas e deslizamentos, já que o solo está encharcado . Agora cedo ( 9:34h ), um total de 534 mortes, ainda com inúmeros relatos de soterrados e desaparecidos. Filas com mais de 50 pessoas nos mercados e postos de gasolina. Muitos comerciantes, numa total falta de respeito ao semelhante, se aproveitando da situação catastrófica, cobrando abusivamente R$6,00 num litro de leite, R$ 15,00 numa caixa de vela, R$100,00 num botijão de gás, R$40,00 por um galão de água. Então eu me pergunto: “Por que se aproveitar de um momento tão doloroso? Certamente irão pagar o preço pela ganância. Notícias de arrastão na cidade de Teresópolis (na Calçada da Fama), o comércio está amedrontado, a maioria com as portas fechadas com medo de saques. A nossa região está desfigurada. Desta vez, a culpa não foi só das construções irregulares, pobres e ricos foram soterrados nessa tragédia, a maior contabilizada até o momento. Em Petrópolis, a situação topográfica não nos deixa muitas opções: ou se mora na serra, ou nos vales.O que nos falta é uma lei de responsabilidade social, um sistema de alerta para as chuvas que funcione, um programa de educação ambiental.Peço que a voz da imprensa interceda por nós, já que o poder político – tão onipotente no momento das eleições – não cumpre suas promessas de campanha.Muito medo assombra os lares da região serrana porque as chuvas continuam. Só posso crer que Deus tem uma grande lição para a sociedade"
Imprimir




