ESPAÇO DO LEITOR: Complexo do Crack em Terras Manans
Texto enviado pelo leitor Everton Avelino.*
A prática de interpretar dados ‘oficiais’ que tratam da realidade social brasileira, divulgados por instituições nacionais, normalmente, resulta numa fragmentação de interpretações capazes, muitas vezes, de implodir tais dados. Ao mesmo tempo, podem revelar múltiplos Brasis implicitados por estas mesmas informações. Acerca do Crack, isso se torna deveras necessário, pois o IBGE é recorrente em divulgar que o país dispõe atualmente apenas de um milhão de dependentes da droga. Recusar tal afirmação não é tarefa complexa, uma vez que o número de municípios brasileiros afetados já ultrapassa os 4.000, ou 98% das cidades, segundo a Confederação Nacional dos Municípios (CNM). Ou seja, por mais que soe absurda a soma de 1 (um) milhão de dependentes, ainda assim, perece óbvio que se trata de um montante irreal, dado o gigantesco número de municípios já impactados.
A contestação do percentual divulgado pelo IBGE, como dito, não é parte de uma operação aritmética intrincada, e sim um apêlo ao recurso subjetivo da percepção social quotidiana. Reduzir o conjunto dos profundos aspectos que orbitam o complexo do Crack ao exemplo de uma cidade ou duas não dá, mas inferir a partir do local sim. Ora, o Crack não espanta apenas pelo efeito avassalador sobre o indivíduo usuário, pela velocidade epidêmica com que se propaga ou mesmo pelo tom de catástrofe social que condensa, e sim pelo número perceptivelmente elevado de pessoas (vizinhos, conhecidos, primos, colegas, etc) próximas afetadas ou afogadas em sua rede.
Estaria o Crack presente no país desde 1989, como parte da necessidade da expansão do consumo na América Latina após declínio nos Estados Unidos. Sua rota original permanece quase inalterada, já que utiliza os mesmos ‘corredores’ de outras drogas sintetizadas há muito presentes por aqui. Normalmente, uma explicativa comum ao dilema da expansão da droga é dada recorrendo-se ao valor irrisório de cada ‘pedra’ – como se o consumo rotineiro e excessivo não fosse resultar no inevitável encarecimento do entorpecente ao usuário. Outra ‘desculpa’, refere-se aos aspectos psicológicos e seus efeitos inescapáveis sobre o corpo do indivíduo viciado, como as sensações de euforia e ampliação sensorial em decorrência da dopamina produzida.
Negar as justificativas citadas é contrariar o bom senso. No entanto, não responsabilizar o descontrole sobre a cadeia de produção e distribuição da indústria química nacional e internacional, por outro lado, também é ingênuo. Mais ingênuo ainda, seria se esquivar da ideia de que tal droga e a rede que a constitui não precisou esforçar-se muito por rasgar o tecido social brasileiro historicamente fragilizado. O Crack é um composto derivado da cocaína, e esta, por sua vez, contém a chamada metanfetamina em sua composição. Seus efeitos concentram-se fortemente no chamado Sistema Nervoso Central (SNC) e são avassaladores. Nunca antes fora ofertado aos indivíduos de camadas sociais pobres (frágeis e fragilizados por múltiplos fatores desde sua concepção) drogas à base de metanfetamina. Ao que sabe, o Crack é a primeira, e veja no que está dando.
Ou seja, o Crack não carrega consigo o pacote simbólico e nem o glamour que a Coca, LSD ou Êxtase. Desde o início, firmou-se como droga para pobre, assim como a Maconha em seu tempo. A revista Veja, por exemplo, ainda na década de 1980, chegou a pintar o perfil social dos usuários da cocaína no Brasil: publicitários, homens (brancos) entre 20 e 45 anos, advogados, médicos, etc. A estes, cabe a alcunha de “dependentes químicos”; àqueles, são “sacizeiros”, “pererês”, “maconheiros” e outros bichos.
A CNM chama atenção para a necessidade imediatíssima de combate ao problema por parte da União, Estados e Municípios; que estes tomem parte no Plano Nacional Integrado de Combate ao Crack e outras Drogas. Alerta a Confederação, ainda, para a estúpida ausência em mais de 91% dos municípios nacionais da adoção de políticas públicas locais que visem o controle e a prevenção do uso e do tráfico de Crack em seus bairros. É gigantesca a soma das cidades que não desenvolvem programas municipais de combate efetivo ao Crack, e Catu, evidentemente, engrossa a soma. Nossa cidade é lupa para o país, pois daqui pode-se imaginar a realidade nacional e descrer dos 1 (um) milhão do IBGE. Também na terrinha, infelizmente, execuções são sumárias e quase diárias. Há pracinhas -‘crackolândias’, jovens zumbis e esqueletizados. Nas portas e dentro das escolas daqui também se começa o vício. Existem mitos segundo os quais “tudo em que se pega vira pedra”, tudo isso e ainda mais são indícios do complexo do Crack em Terra Manans.
*Os materiais publicados neste espaço não refletem necessariamente as idéias e opiniões do Expresso Catuense.





