A Velha Fazendeira: até a subjetividade é objetiva

Encontrei ontem uma velha senhora que vagava pelas ruas da cidade. Parei para dois dedos de prosa e logo a conversa se estendeu tarde adentro.
Ela falava sobre mil coisas ao mesmo tempo, parecia delirar em meio a uma lucidez cansada. Roupas sujas, cabelos alourados com uma tintura vagabunda, pele rosada e castigada pelo tempo. Aquela velha senhora era uma prova viva do seu tempo.
Dentre as várias narrativas que me foram feitas uma interessou-me bastante. Soube de uma grave disputa que ocorreu naquela cidade há alguns anos.
O que sucedeu foi que uma fazendeira havia avançado com a cerca na fazenda vizinha. Na época, o gestor das terras invadidas não se queixou... Já os colonos daquela região ficaram revoltados.
O tempo passou e, depois de anos, a fazenda invadida passou a ser administrada por uma mulher. Ela tinha a difícil missão de pôr ordens na fazenda que estava à beira do caos.
Veio cheia de promessas. Como dizem, prometeu mundos e fundos e até mesmo a mudança da cerca de lugar. Lhe deram 4 anos para reerguer aquele lugar.
Novamente os anos se passaram. Mas parece que os capangas da fazenda a orientavam errado e aquele pedaço de chão ia de mal a pior. A escola estava sucateada e ia ser fechada. As estradas esburacadas e os colonos sem nenhuma perspectiva de vida. Já os capangas...
Decidiram lhe dar mais 4 anos para administrar a fazenda. Novas promessas, mas o tempo avançava e nada saía do lugar... Nem mesmo a cerca.
No penúltimo ano da sua gestão, a fazendeira decidiu empenhar toda a sua energia na remoção da cerca. Mas pode-se esquecer do marasmo em que a fazenda caiu em sua administração? Tudo bem que a fazenda já vinha capengando, mas ela também não ajudou a melhorar.
A velha senhora começou a delirar e não entendi direito, mas parece-me que a tal fazendeira conseguiu um acordo final para o caso da cerca. Foi uma verdadeira festa. E merecida.
Queria apertar a mão da fazendeira, como fiz em outra ocasião, para poder parabenizá-la e dizer: obrigado por remover a cerca. Seu nome entra para os anais desta fazenda por este grande feito. Porém, fazendeira, será que a cerca é suficiente para apagar as 2 gestões em que abandonou os seus colonos?
Já ia me esquecendo dos meus compromissos. Pedi licença para a velha senhora e partir para a velha estação. Antes, ela fez questão de se apresentar:
- Prazer. Eu sou a fazendeira que devolveu as terras a esta cidade.
Por: Romisson Silva
Não é preciso citar nomes nem mesmo agredir com as palavras. Aprendam: até a subjetividade é objetiva.Romisson Silva



